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"O compromisso dos alunos provoca felicidade"

1/5/2020

A professora Cristina Laclette Porto trabalha no Pró-Saber desde 2006, e é responsável pelas disciplinas “O Brincar e sua importância na Educação Infantil” e “Metodologia de Pesquisa I e II”. Nesta entrevista, ela conta que não tinha nenhuma experiência com ensino remoto. E relata como tem sido desafiar-se nesse modelo durante a quarentena determinada pela pandemia do Covid-19. Cristina diz estar animada, e fala de sua alegria em ver a determinação da turma 2018 do Curso Normal Superior, composta na maior parte por mulheres que estão encontrando tempo e espaço em casa para aulas noturnas de segunda a sexta-feira.

P:  O que lhe apareceu de imediato como principal desafio do ensino remoto?

R: Tive três preocupações principais: manter uma visão geral do grupo e de cada aluno; não cair em um modelo de aula expositiva e centrada apenas no professor ou no conteúdo da disciplina; e encontrar um ritmo de aula que incluísse a todos, compreendendo e acolhendo dificuldades com o uso da tecnologia. 

P: O que mais a surpreendeu?

R: Embora seja mais difícil ter uma visão de cada um e do grupo, foi possível criar estratégias para contornar essa dificuldade. Como a turma 2018 já domina os instrumentos metodológicos propostos por Madalena Freire, e já introjetou o nosso modo de trabalhar, os próprios alunos e a observadora nos ajudam nessa missão.

Ver o compromisso e a determinação de cada pessoa em estar presente e acompanhar cada passo de cada encontro é surpreendente. Provoca felicidade e euforia.

P: Como avalia a ferramenta utilizada em suas aulas em termos de interatividade?

R: Usamos o WhatsApp, e me sinto tranquila. Acredito que para cada grupo existem ferramentas mais ou menos adequadas. No caso da Graduação, o WhatsApp tem funcionado muito bem e atende às condições da turma, pois existem problemas de internet em alguns locais de moradia.

P: Que recursos está utilizando? Música, texto, vídeo? Como avalia o papel desses recursos nas aulas remotas? Igual, maior ou menor do que nas aulas presenciais?

R: Sempre usei recursos audiovisuais nas aulas, e isso se mantém como fundamental no contexto atual. A leitura compartilhada de texto fica mais prejudicada, mas até isso estamos conseguindo contornar, recorrendo ao áudio e ao vídeo.

A grande perda é não ver a reação do grupo aos materiais apresentados. Todo mundo assiste ao mesmo tempo, mas individualmente e, só depois cada um se manifesta. Aquela reação da audiência – risos, comentários, comoção – perde a espontaneidade do momento.

Por outro lado, fica tudo registrado em texto, o que ajuda no estudo e na avaliação da aula. Não estava usando áudio nem minha imagem, mas ao ver maneiras criativas encontradas por outros professores comecei a me arriscar e está dando certo. Cada aula é acompanhada de novas descobertas. Vale ressaltar que muitas ideias surgem dos próprios alunos.

P: Como tem sido a recepção da turma a esses conteúdos?

R: Os vídeos têm sido um sucesso, cumprindo os objetivos da escolha, como fonte inspiradora para fazer emergir conteúdos da disciplina ou do sujeito mas também como parte integrante de outras atividades. Exemplo disso foi o uso da música "Tocando em Frente", de Almir Sater, na primeira aula remota (https://www.youtube.com/watch?v=SWtjTkixv5M). Ela tinha sido enviada por alunos da turma 2018 para os professores, antes do recomeço das aulas, e achei importante ouvirmos juntos.

Compartilhei no grupo minha alegria em recebê-la. Percebi que, ao ser levada para aquela aula, a música acolheu as angústias de cada um, semeou alguma esperança e virou uma senha de entrada para o texto – “Notas sobre a experiência e o saber de experiência” do espanhol Jorge Larrosa, cujos conceitos estamos estudando. 

Tocando em frente

Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso
Porque já chorei demais

Hoje me sinto mais forte
Mais feliz, quem sabe
Só levo a certeza
De que muito pouco sei
Ou nada sei

Conhecer as manhas e as manhãs
O sabor das massas e das maçãs

É preciso amor pra poder pulsar
É preciso paz pra poder sorrir
É preciso a chuva para florir

Penso que cumprir a vida
Seja simplesmente
Compreender a marcha
E ir tocando em frente

Como um velho boiadeiro
Levando a boiada
Eu vou tocando os dias
Pela longa estrada, eu vou
Estrada eu sou

Conhecer as manhas e as manhãs
O sabor das massas e das maçãs

É preciso amor pra poder pulsar
É preciso paz pra poder sorrir
É preciso a chuva para florir

Todo mundo ama um dia
Todo mundo chora
Um dia a gente chega
E no outro vai embora

Cada um de nós compõe a sua história
Cada ser em si
Carrega o dom de ser capaz
E ser feliz”


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