A leitura

Por Maria Delcina Feitosa

A leitura é o “milagre fecundo de uma comunicação no seio da solidão”
Marcel Proust

Para mim a leitura é um dos insumos da vida. Em suas diversas facetas alimenta meus sonhos, viajo por lugares onde minhas pernas não alcançam, balizo minhas opiniões e perguntas. Um filme provoca a leitura de um livro ou de uma peça de teatro, uma imagem me faz ir a Web buscar o contexto de sua produção, uma música suscita assistir um filme…

Isso aguça minha vontade de conhecer cada vez mais, quanto mais leio mais quero ler, “é uma leitura que puxa outra”, num contínuo processo de retroalimentação. São fios que vão se tecendo a medida em que vou vivendo!

Marcelo Schwartz no texto em que analisa “Os Neurônios da Leitura” de Stanislas Dehaene pondera que “a boa e velha leitura”, inventada pela primeira vez cerca de 5.500 anos atrás é um pequeno milagre! Se constituindo a mais fundamental criação humana, pois nos permitiu ampliar nossa memória  para “horizontes antes inimagináveis”(2012, p. 1).

Paulo Freire  (2006, p. 20) diz que “a leitura do mundo precede sempre a leitura da palavra e a leitura desta implica a continuidade da leitura daquele”. Maria Helena Martins  (2007, p. 30) acrescenta que leitura é: “um processo de compreensão de expressões formais e simbólicas, não importando por meio de que linguagem. Assim, o ato de ler se refere tanto a algo escrito quanto a outros tipos de expressão do fazer humano, caracterizando-se também como acontecimento histórico e estabelecendo uma relação igualmente histórica entre o leitor e o que é lido.”

Como começamos a ler? Que mistério precisa ser desvendado? Para  Martins (2007, p. 15) “Certamente aprendemos a ler  a partir do nosso contexto pessoal. E temos que valorizá-lo para irmos além dele.” Para contextualizar sua afirmação relata o famoso processo de aquisição da leitura de Sartre descrito em sua autobiografia, vamos ver como foi:

“Apossei-me de um livro intitulado Tribulações de um chinês na China e o transportei para um quarto de despejo; aí empoleirado sobre uma cama de armar, fiz de conta que  estava lendo: seguia com os olhos as linhas negras sem saltar uma única e me contava uma história em voz alta, tomando o cuidado de pronunciar todas as sílabas. Surpreenderam-me – ou melhor, fiz com que me surpreendessem -, gritaram admirados e decidiram que era tempo de me ensinar o alfabeto. Fui zeloso como um catecúmeno; ia a ponto de dar a mim mesmo aulas particulares: eu montava na minha cama de armar com o Sem família, de Hector Malot, que conhecia de cor e, em parte recitando, em parte decifrando, percorri-lhe todas as páginas, uma após outra: quando a última foi virada eu sabia ler.” (MARTINS, 2007, p.15)

E relata ainda o júbilo dele com a descoberta do mundo da leitura:

“Fiquei louco de alegria: eram minhas aquelas vozes secas em seus pequenos herbários, aquelas vozes que meu amor reanimava com seu olhar, que ele ouvia e eu não! Eu iria escutá-las, encher-me ia de discursos cerimoniosos e saberia tudo. Deixavam-me vagabundear pela biblioteca e eu dava assalto à sabedoria humana. (…) Nunca esgravatei a terra nem farejei ninhos, não herborizei a terra nem farejei ninhos. Mas livros foram meus passarinhos e meus ninhos, meus animais domésticos, meu estábulo e meu campo; a biblioteca era o mundo colhido num espelho: tinha sua espessura infinita, a sua variedade e a sua previsibilidade. Eu me lançava a incríveis aventuras: era preciso escalar as cadeiras, as mesas, com o risco de provocar avalanches (…) Deitado sobre o tapete, empreendi áridas viagens através de Fontenelle, Arisófanes, Rabelais: as frases revestiam-me à maneira das coisas; cumpria observá-las, rodeá-las, fingir que me afastava e retornar subitamente a elas de modo a surpreendê-las desprevenidas: na maioria das vezes guardavam seu segredo.” (MARTINS, 2007, p.15-16).

Eu comecei a ler pela leitura das figuras das revistas em quadrinhos, eu e minha irmã ganhávamos uma simbólica mesada, que podíamos gastar como quiséssemos, juntávamos nossas fortunas e a cada mês comprávamos revistas em quadrinhos. Eram nosso tesouro, mergulhávamos naquele mundo de super-heróis, “líamos” e relíamos, contávamos infinitas vezes aquelas histórias para nós mesmas e para quem tivesse paciência de nos escutar.  Perguntava a mamãe o que significavam as letras, como se juntavam, e ia lendo, ora as letras, ora as imagens, até que sem perceber a leitura se fazia no conjunto, eu já sabia ler!! e, como Clarice, “devorava os livros” (GOTLIB, 1995, p. 87).

Como nos tornamos leitores? Eu fiz meu relato, Maria Helena nos contou como Sartre começou a ler, agora é sua vez, revisite seu processo de leitura, como começou a ler? Seu avô também abria o livro “com um golpe seco ‘na página certa’, fazendo-o estalar como um sapato”? (SARTRE, 1984, p. 30). Que fatores lhe influenciaram nesta questão?

Referências

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler em três artigos que se completam. São Paulo: Cortez, 2006.
GOTLIB, Nadia Battela. Clarice: Uma Vida Que se Conta. São Paulo: Ática, 1995.
MARTINS, Maria Helena. O que é leitura? São Paulo: Brasiliense, 2007.
SARTRE, Jean-Paul. As palavras. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
SCHWARTSMAN, Hélio. Conversando com os mortos. In: Folha de São Paulo, São Paulo, 14/06/2012. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/1104386-conversando-com-os-mortos.shtml?utm_source=twitterfeed&utm_medium=twitter>. Acesso em: 18.06.2012.
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